Lembro da 1ª vez que vi um pôster do Page, com a emblemática guitarra de 2 braços no quarto do meu irmão mais velho, presente do meu tio que hj mora no Canada e também não ouve mais o Led. Mas o impacto daquela visão num garoto de 10 anos foi como a primeira vez que peguei uma onda ou quando vi um belo seio feminino.Conheci então um Lp, sim, Lp pq eu tenho 37 anos..enfim, e nele na contra capa aparecia a figura de um ancião cuidando de uma cidade, e a gravura me deixava pregado, enquanto tentava decifrar pequenos detalhes, como a estrela ou a ponta do capuz. E era engraçado porque a molecada da época, curtia toda e qualquer moda televisiva, e eu, ouvindo LED ZEPPELIN e outras bandas que me faziam a cabeça e ainda, tinha no meu caderno colado na capa a figura daquele anjo ou de Icaro, que tbm ficou conhecido como uma certa “marca” do grupo.
Veio então a adolecencia, e com ela, uma radio aqui em Curitiba, que além do Led, tocava bandas ótimas, como AC/dc, Smiths, Sugar Cubes, e tantas outras que so tocavam na saudosa Estaçao 1ª Fm, radio esta que acabou, e a ultima musica tocada foi do Led Zeppelin. Nessa mesma época, a filha do 1º casamento do meu irmao mais velho, era embalada por mim ouvindo All my Love.
O tempo passou, meu irmão nem rock ouve mais, meu tio La no Canada diz que gosta mas no radio dele deve ta tocando sabe-se la o que e minha sobrinha gosta de hip-hop (onde errei?). Tive uma namoradinha que pra me agradar, uma vez foi numa loja de CD, sim, já era CD, e comprou-me o The House of Holy , ela que so tinha ouvido falar da Starway to Heaven pq ouvia os loucos no boteco tirando no violão. Hoje ela não gosta de mim, mas gosta de Led Zeppelin, assim como The Rain Song me faz lembrar de uma época que hoje nem se parece com fumaça, pois foi tão rápido e efêmero quanto.
Pra mim, a musica me faz pensar, escuto a mesma musica por anos, e a cada ano me traz uma nova perspectiva, digo isso pq antes eu ouvia e não entendia muito de ingles, mas apaixonava-me pela melodia e o transe que causava. Hoje, entendo so um pouquinho de inglês, arranho menos uma guitarra, eu escuto e fico tentando decifrar a poesia, o que poderia ou não estar incutido ali entre um sussurro e outro, e foi justamente na famosa Starway que ouvi hoje, na radio, que me fez pensar em mais detalhes que antes me passaram desapercibidos e tbm me fez lembrar da primeira vez que ouvi o Led Zeppelin, e a sensação de descoberta foi a mesma!!
Se conheceram muito jovens, e como todos os jovens, cometeram os erros que os jovens cometem. Que se gostavam muito, ninguém duvidava, como também ninguém duvidava que não ficariam juntos. Seja por conta das amigas dela, que arranjavam novos pretendentes, seja pelos amigos dele, que diziam que o negocio era festar e conhecer tantas outras gatinhas que haviam em seu percalço.
O tempo passou e as previsões estavam certas, pois junto com os anos, vieram também os espaços criados entre eles, claro que um ou o outro, de alguma forma sempre sabiam de uma noticia referente, se estava por ali ou do outro lado do oceano, se casara ou entrado em algum monastério e assim a vida de cada um dos dois foi seguindo, cada qual levado por suas escolhas ou empurrados pelo vento que soprava de seus próprios lados.
Agora já não eram tão jovens, não que estivessem velhos, longe disso, aliás se vangloriavam de estarem em ótima forma pra idade que tinham, mas os dias passaram tão rápido que muitos deles não continham sequer uma fagulha de pensamento entre eles, afinal, não eram mais tão jovens e os erros que se cometem, são menores em quantidade, talvez não em tamanho, afinal as responsabilidades também cresceram. Chegou um dia, daqueles que não se marca no calendário nem acendido a fagulha da lembrança, ele liga a TV enquanto come um pão com ovo e um copo de coca cola, seu lado saudável se restringia a praticar alguma atividade física, mas não pro que levava ao estomago, mas enfim estava ele lá, vendo TV e aquele rosto, tão conhecido e ao mesmo tempo perdido em alguma gaveta da cabeça, estava ali, sorrindo aquele sorriso, que tanto o fez sorrir também e falando a respeito de coisas que ele nem imagina e o mais intrigante era que ele não assistia aquele canal regularmente, só quando havia algum programa ligado a esportes e sim, lá estava ela.
Ele vagarosamente pousou o pão c/ ovo no prato, deu mais um gole no copo de coca cola, a imagem passou e enquanto tentava entender o que havia acontecido, lembrou que de alguma forma, sempre seria refém daquelas lembranças, não importando o que tudo tivesse passado e o que haveria de se passar, e ser refém dessas lembranças era saber que não se pode pagar o resgate, pois o preço seria muito, muito alto.
Eu não lembro 80% das pessoas que conheci nessa minha porca vida. Hoje meu cérebro foi bombardeado de musicas e imagens que me levaram pra épocas remotas, mas na verdade o que foi lembrado realmente? Escutei umas 3 ou 4 musicas que me transportaram pra adolecencia, mas na verdade, eu lembrei que escutava essas musicas nessa época, mas as pessoas? Quase nenhuma!Num site de relacionamentos pesquisei colégios, lugares, pra ver se eu reconhecia alguém que tivesse estudado ou freqüentado, sabe quem eu reconheci? Ninguem! Aposto que eu tbm sou um fantasma pra maioria das pessoas que conheci da minha pré adolecencia pra cá. Como trabalho no ramo Comercial, tenho o privilegio de estar em casa em horários adversos e hoje, na sacada de casa, assisti 3 garotos tramando algum plano infalível, alguma caça a garotas, e tentei recordar quem seriam meus melhores amigos da época e infelizmente, não consegui lembrar de todos. Ao mesmo tempo, eu lembrei de qdo freqüentava e trabalhava no Omar Shoping, que antes era mais uma galeria do que um shopping, ideal pros caras que surfavam, andavam de skate, gostavam de rock ou beber num lugar em que se podia se ver livre de musicas pop ou hits de domingo. Era tanta gente que se conversava, tanta gente que se conhecia, que não caberia nessa pagina, e hoje, não lembro nomes, não lembro fisionomias, apenas a imagem daquele pessoal reunido. No site de relacionamentos, tenho mais de 300 amigos, converso com uns 20 e vejo uns 7. O que salva são meus amigos/irmãos que conheci em meados de 1990 e ate hoje estamos ae na atividade, mas fica este vazio de lembranças, de pessoas que passaram e hoje são disformes, são estranhas,são fantasmas de nos mesmos.
Eu ja fui melhor! Sério...ja fui mais encorpado fisicamente, ja fui mais companheiro, ja bebi mais, ja aguentei bem mais a noite, ja fui melhor remunerado, já tive mais paciencia, ja fui mais otimista, ja fui melhor... é sério! Teve um tempo que, se alguem me chamasse, fosse no bairro mais longe da cidade, com a perspectiva de tomar umas geladas, la estava eu, montado em minha esfumaçante motoca e pra lá eu me jogava. Teve um tempo, que se ninguem me chamasse, eu ia mesmo assim, encarava o frio e a noite, so pra nao passar em branco ou em claro sem ter feito nada. Teve um tempo, que so pra fazer as pazes, ou melhorar ainda mais minhas expectativas, eu fazia loucuras e deixava-as com raiva ou envaidecidas, ou as duas coisas! Eu ja fui melhor, é serio... Agora mesmo, numa sexta a noite, to com os olhos pregados neste quadrado luminoso, esperando minha namorada ligar nao sei de onde, meus amigos aparecerem talvez. Estou com minha labrador deitada em meus pés e roncando feito um 1113 na subida da serra. O que fazer com velhos loucos que ja nao sabem onde se valer? O que fazer com aqueles que so queriam era um bom papo regado a uma cerva gelada, um abraço aconchegante de sua mulher, ou um norte para se guiar? Eu ja fui melhor, e é serio!
O bem que vem do céu
Sorrir depois de acordar
O Sol de um sonho bom
Menina que me ensina a andar
e foi tão...
.
Musica e letra composta em meados de agosto de 2009 e finalmente postada no blog para registro, composta por Tico Cardinal e com ajuda de arranjos de Roberto Donato, compositor, Prof Musica e companheiro de moradas..
Faz tempo que nao posto nada, nem uma poesia, nem uma letra musicada, nem nada! Tem uma grande amiga minha, que mesmo postando "anonimous", (adoro isso), sei que é ela, mandou um singelo - atualiza rapá! - na minha testa. No começo do meu blog, isso foi a uns 3 ou 4 anos, nem lembro, era na verdade um lance meio diario, meio amigo imaginario de mesa de bar, sabe cumé?? entao...e o lance foi tomando corpo, se formando sozinho, e nessa fui entrando nesse mundo blogueiro de ser. Pois bem..o tempo foi passando, e até aquelas pessoas que eu seguia, que tambem escreviam, notei que tambem foram esmorecendo, as palavras foram se apagando.. será que crescemos? será que apenas, nos enchemos os proprios sacos? vai saber. Mas este ultimo tapa que levei, me acordou nao para o blog, mas para vontade de expor palavras, de me colocar na mesa, ao lado da garrafa e da porçao de amendoim. Hoje leio o que escrevi nos anos que se passaram, e é engraçado não me ver tão explicito naquelas palavras, naqueles desabafos. Queria transformar essas palavras em pedaços de papel e jogar la de cima da torre da Telepar, se é esse nome ainda, pelo menos assim, as palavras estariam literalmente ao vento, e quem sabe, chegariam mais facil até voce, que ja me leu.
Havia dentro de mim um moinho nele eu moía minhas alegrias tristezas as lembranças as saudades meus bons meus maus momentos e transformava tudo numa fina farinha chamada conhecimento dela eu fazia o pão da vida repartia com aqueles que tinham fome de conhecer viver... 03-05-96 ...e nossa historia, não ficará pelo avesso assim, sem final feliz, teremos coisas bonitas pra contar, e até la´,vamos viver, temos muito ainda o que fazer, não olhe pra tras, apenas começamos, o mundo começa agora, apenas começamos....
Eu já criei um mundo! Verdade, eu fiz ele inteirinho!
Ele era de uma lindeza sem tamanho, grande pra quem
entrava, pequeno pra quem olhava de fora.
Ele era em forma de prato. Eu gostava do formato de prato, por que você olhava
pra frente e via aquele horizonte todo e não enxergava
o fim, aí nao tinha fim daquele mundo.
Já existiam outros vários mundos
mesmo por que , já tinha um outro inventor de mundos, só
que o danado tinha muito mais recursos, muito melhor relacionado,
e tanto é que tanto fez, que o formato e o nomes dos formatos eu emprestei
dos mundos que Ele fez, mas enfim...
Alem disso, ele, o mundo, com o tempo que
mais nomes, formatos e seres começaram a viver nesse meu mundo,
aconteceram coisas boas, outras tantas coisas nem tanto.
Essas Coisas, eu empurrava pras bordas do mundo, e deixava no meio
do meu mundo só as coisas boas. Mas então, juntou tanta, tanta
Coisa ruim, que as bordas do meu mundo começaram a dobrar, envergar
até cair e juntar tudo lá embaixo.
No começo foi bom, pq tudo de ruim tava lá, e as coisas boas cá em cima. Mas então, com o peso, o mundo começou a balançar, balançar, rodar até dar pra
girar no seu eixo, e misturou tudo!! Aí, o mundo que era um prato,
ficou um tempo meio que um pastel, até virar
uma bola de tudo que tinha nele.
Nesse tempo, nem eu, que tinha inventado Meu mundo, pude mais mandar nele,
mal e mal entrar no mesmo!
Fui destituído do meu posto de criador daquele mundo, entraram e me chutaram
de lá meu mundinho que eu gostava tanto.
Agora eu entendo aquele outro criador de mundo,
vai ver foi por isso que ele criou tantos outros por aí.
Se eu inventar outro, não faço mais em forma de prato!!
Seu nome era Jacob Nonatto, filho de uma tradicional família do interior do Paraná . Cidade esta de singelo nome Cambará, famosa por sua pinga, rara hoje em dia pois em algum momento a destilaria teve que fechar suas portas, por conta de um rombo em seu livro caixa. Coisas relacionadas a algum nome importante, la de Cambará, claro.
Jacob, como todos os meninos daquela época, passava os dias jogando
bola de capotão com seus amigos, ia pra escola de manha, ajudava
seus pais na sua também tradicional loja de conveniências, como
diriam os comerciantes de hoje, naquela época,chamava-se
o imponente nome de “Venda Nonatto”. Jacob, como também todas as crianças
daquela época, fez crisma, 1ª comunhão e demais convenções que uma
família tradicional, católica apostólica romana, exige. Ele era o tipo de
garoto que ficava horas viajando, na sua cachola,
deitado no gramado de casa, olhando os
formatos das nuvens, e pensando como poderia, aqueles amontoados de pingo de água, como aprendeu na escola, que eram as nuvens, imitarem os bichos que tem aqui em baixo. Deus era um cara danado de esperto mesmo.Bom, o tempo passou e como acontece com todos os que crescem no interior e que não querem ficar por lá, foi embora pra capital. Seu primeiro emprego foi de chapeiro numa famosa rede de fast-foods, o que já era um avanço entrar numa empresa famosa que via na TV lá em Cambará. Ia pra casa tarde da noite, aprendeu algumas gírias e quando dava, olhava pras nuvens, e o que ele via eram os sanduíches que ele tinha que montar no emprego, não mais os bichos.Deus era um cara danado mesmo. Ele mostra o que agente descobre, imagina aquelas nuvens que não formam nada, pelo menos que ele conhecia. No emprego, ele foi apelidado de “judeuzinho”, por causa do nome, e nem ele mostrando os conhecimentos que tinha de catolicismo, não tinha Cristo que fizesse provar que não era judeu, assim ele ficou conhecido: Judeuzinho.
Jacob, o judeuzinho, que não era judeu e sim católico apostólico romano, decidiu que fazer sanduíches já estava pra lá de chato, despediu-se de seus então novos amigos e foi trabalhar numa fábrica, que tingia couros. Ele, lá em Cambará, via o que se podia fazer com couro: bolas, sapatos, selas, chicotes, mas nem imaginava como o couro, ficava preto, marrom, as vezes vermelho e até verde!! O que ele achava interessante alguém usar couro, pintado de verde, na verdade achava até feio, estranho, mas então ele começou a passar seus dias tingindo couro, e quando olhava pras nuvens, já não enxergava bicho, nem sanduíches, na verdade começou a rarear imagens nas nuvens. Vai ver que ele tinha era que descobrir outras coisas pra Deus mostrar nas nuvens. No primeiro mês que ele começou a trabalhar nesta fábrica, entrou um antigo companheiro de chapa, que prontamente ficou feliz em encontra-lo, e que também ajudou a espalhar o singelo apelido, sendo assim, Judeuzinho ficou famoso por ser um católico judeu.
Um dia, , fez sozinho um sapato com retalhos de couro, seu gerente,
que este sim era judeu, achou o sapato bonito, e por ter como aprendizado de
sempre um judeu ajudar o outro, mostrou ao dono da fábrica. O dono da fábrica chamava-se Sr. Canaã, este também de mesma crença, e gostou muito do que viu. Chamou Judeuzinho pra sua sala e discorreu uma enorme conversa de que como ele, também começou de baixo e montou seu império a custo de muito trabalho e ofereceu
o notório cargo de “criador de peças para vestimentas”. Assim, em apenas 2 meses, Jacob já era o preferido do gerente, do dono, e um exemplo a ser seguido pelos colegas. O tempo então passou, Judeuzinho foi ficando famoso, pelos seus sapatos que foram cada vez mais sendo pedidos pelas grandes lojas e em menos de 3 anos, já tinha o mais alto cargo na fabrica, tinha ficado rico, ajudado seu amigo chapeiro colocando-o como seu ajudante pessoal até chegar o dia em que o dono da fabrica, que tinha apenas uma
filha, apresentou-a a judeuzinho e o romance foi inevitável, assim como o casamento. Sendo assim, ele começou a freqüentar as altas rodas da sociedade, apresentado aos maiorais da cidade, do prefeito ao dono das bancas de jogo do bicho, e judeuzinho foi cada vez mais se interessando pela tal da “política”, conversa constante entre aqueles que agora o rodeavam.
Não demorou muito, Judeuzinho com a fama que havia batido em sua porta, lembrou de sua cidade natal, a velha Cambará. Olhou pra cima e viu numa grande nuvem, o prédio velho da prefeitura de lá e teve uma idéia. Decidiu então, usar o dinheiro que conseguiu bem como seu apoio no meio político e voltou para o interior. Lá, Judeuzinho, apelido que sua mãe não apreciou nem um pouco, ela que era uma tradicional seguidora do catolicismo apostólico romano, mas feliz com o reencontro do agora famoso e bem sucedido filho. Na primeira campanha, foi eleito com maioria esmagadora de votos, tornando-se Prefeito! Melhorou o calçamento das ruas, implantou novas praças e renovou os prédios públicos, com isso, a antes pacata cidade de Cambará, ficou famosa e atraiu moradores de outras cidades e também, até da capital. Com isso, O progresso fez-se na cidade. Comerciantes aumentaram suas lojas, tudo foi progredindo espantosamente e com o progresso, veio os problemas. Lugares calmos, transformaram-se em antros de luxuria e perdição, grandes lojas abriram filiais, Judeuzinho começou a perceber que sua cidade mudava a cada dia, olhava pras nuvens e so via nuvens e mais nada. Até o antes tranqüilo jogo do bicho, que o pai de judeuzinho anotava na venda, já tinha o controle dos que o elegeram. Aumentava-se a população, e com isso, apareceu a primeira favela da cidade. Judeuzinho, que já tinha visto isto na capital, sabia que não era boa idéia ter na sua cidade e começou a matutar alguma resolução pra este problema.
Mais ou menos ao mesmo tempo, Sr. Canaã, agora sogro de Judeuzinho, sugeriu abrir uma filial da fabrica de sapatos na cidade, o que geraria empregos e tal. Assim, foi fundada a Fabrica Couros Cambara Ltda. Os ruralistas da cidade ficaram empolgados, afinal, o couro de seus gados poderiam ser vendidos para fábrica. Poucos dos moradores desta favela foram escolhidos para o trabalho, afinal, como era uma filial da fabrica da capital, era exigido experiência. Também, a qualidade dos couros, que os
ruralistas agora tinham que tratar melhor seu gado, para que não houvesse danos
ao couro para vender a fabrica. Como não dispunham de muito dinheiro, foram perdendo para grandes fazendas das redondezas, e não gostaram nada disso.
Pobre Judeuzinho, já escutava nos bares e rodas de conversa na praça, que ele
apenas veio pra desgraçar a cidade e mais nada. A favela aumentava de acordo
com o tempo, e apareceram então, os guardadores de carro, flanelinhas, pedintes
de sinal, enfim, Cambara agora era cidade grande.
Numa manhã, enquanto os rumores de antigos moradores desgostosos, ruralistas
reclamando que estavam sendo saqueados, seus pomares invadidos e gado sendo
morto, olhou pra cima e viu nas nuvens uma grande rua com pomares ao lado,
teve uma idéia: na cidade, havia um pomar que era usado pela antiga prefeitura
para fazer merenda, hoje distribuída por uma empresa terceirizada, decidiu por
aquele povo todo pra cuidar e criar o “Pomar da Família”. Era para ser uma maneira de aquele povo cultivar a terra e ter como sobreviver da terra. Em dois meses, esse “povo”
que la foi colocado pra cuidar, com casas pré-fabricadas e ruas arborizadas, já
estavam oferecendo o espaço para carros e ficou dividida em dois grupos:
a turma das frutas e a turma que ficou com o lado das verduras. Não precisa
dizer que, os comerciantes não gostaram da idéia afinal eles estavam perdendo
clientes que iam comprar dos agora chamados “Pomeiros”.
Foi feita uma reunião de emergência com os comerciantes, que queriam
A expulsão imediata dessa gente que “ganharam de mão beijada a terra”
e so estavam tirando o que ali já existia. Ruralistas entraram em conflito
com os flanelinhas pelo uso de sua água e gado que insistiam em roubar a noite.
Começa então uma verdadeira guerra entre ruralistas, flanelinhas e os “pomeiros”
por disputa de lugar, direitos e claro, dinheiro.
Judeuzinho, num ato de total desespero, manda avisar que gostaria de conversar
com os representantes de cada classe para entrar num acordo.
O encontro seria então na praça da cidade, onde ele deitava no gramado para ver
as nuvens. No dia e hora marcado, pra lá Judeuzinho se dirigiu. O rumor de tal
encontro, que voou como fogo em palha seca, ajudou a deixar o centro da cidade
em total alvoroço. Carros já não passavam pelas ruas, ruralistas com seus tratores
e faixas se aglomeravam no lado norte da praça, enquanto no lado sul os comerciantes
e lado oeste os flanelinhas, com apoio dos flanelinhas la do Pomar da Família, de olho
no lucro dos viveres e finalmente ao leste da praça os Pomeiros.
Judeuzinho, antes de falar pediu uma prece para apaziguar os ânimos, neste momento,
um acólito evangélico começa a bradar palavras de que tudo aquilo era intervenção
do Diabo, enquanto o vigário pede calma as suas beatas. Não mais que de repente,
uma berinjela atinge o líder dos ruralistas que não se fez de rogado e tocou o trator
em cima dos pomeiros, acreditando que partira deles a agressão. A batalha começara,
frutas, verduras, tratores, garrafas de detergente, paus pedras, a policia
do municipio começa de descer o borrachão em todo mundo e ouve-se um tiro!
A população estaca , a batalha que havia atingido um nível surreal, paralisa como
que por mágica e no centro de tudo isso, no coreto da praça, Judeuzinho esta deitado
com uma mancha vermelha em seu peito. Enquanto a policia agora sem controle prende, bate, atira e explode a esmo, todas as facções correm, fogem, brigam, Judeuzinho
caído, olha pra cima e vê um céu sem nuvens, Deus não tinha nada a mostrar nas
nuvens pra ele naquele momento.
No dia seguinte, a cidade estava de luto, Judeuzinho fora enterrado como herói,
filho pródigo de Cambará, a pedido da mãe, missa católica apostólica romana, com
um discurso da comunidade judaica à parte e neste dia, o céu encobriu-se de nuvens